sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O Aparelho Repressor e o Aparelho Ideológico de Estado

            Fonte de imagem: Questões de Concurso
 
OBS: Partes desses escritos compõem o primeiro capitulo da minha dissertação de mestrado, com direitos autorais reservados a  BRITO, Leticia dos Santos. O trabalho integral pode ser consultado na Biblioteca de teses e dissertação da Universidade Metodista de São Paulo

Quando o povo foi chamado para dar auxilio a burguesia para a efetivação da Revolução Francesa, não imaginava que os ideais tão proclamados de Liberdade, Igualdade e Fraternidade seriam tão distorcidos em sua efetivação. Subindo ao poder, tudo o que a burguesia ofereceu ao povo foi apenas a liberdade de compra e venda; a lógica agora, era a do capital. Para as massas que se transformaram em proletariado, o sonho de igualdade e fraternidade fora suprimido quando transformaram o trabalho em mercadoria.

Esta divisão do trabalho, que implica todas estas contradições e repousa por sua vez sobre a divisão natural do trabalho na família e sobre a divisão da sociedade em famílias isoladas e opostas, implica simultaneamente a repartição do trabalho e dos seus produtos, distribuição desigual tanto em qualidade como em quantidade; dá, portanto origem à propriedades cuja primeira forma, o seu germe, reside na família, onde a mulher e as crianças são escravas do homem. A escravatura, decerto ainda muito rudimentar e latente na família, é a primeira propriedade, que aqui já corresponde alias à disposição da força de trabalho de outrem. De resto, divisão do trabalho e propriedade privada são expressões idênticas – na primeira, enuncia-se relativamente à atividade o que na segunda se enuncia relativamente ao produto desta atividade. (ENGELS, MARX, 1933)

A lógica da repartição do trabalho e da propriedade entre diferentes setores sociais aumentava a distancia entre os homens, a exploração do homem pelo homem era aceita como uma necessidade para o desenvolvimento social. Fato que se agravou após a Revolução Industrial, que acabou enraizando a necessidade de transformar o trabalhador em mão-de-obra. Era a lógica da mais valia segundo a qual o homem vendia sua força de trabalho em troca de salário para adquirir bens de consumo.
Os aparelhos de estado funcionavam todos pela força repressiva. Os aparelhos de estado de Marx podiam ser divididos nas seguintes esferas: O governo, a administração, o exército, a policia, os tribunais, as prisões, entre outros. Os aparelhos de estado funcionando seguindo sempre a lógica do capital.
Contudo, levando em consideração todas as transformações do capitalismo durante a história, talvez a teoria sobre AIES (Aparelhos Ideológicos de Estado) que mais se aproxime de explicar a realidade atual seja a teoria apresentada por Louis Althusser (2007), famoso intelectual que seguia os princípios marxistas para a análise do estado e tentou completar o estudo sobre os aparelhos de estado apresentando a teoria dos aparelhos ideológicos de estado, que supunha que através da ideologia disseminada conseguia-se manter a ordem social vigente mesmo em tempos de crise.
Mas em que ponto os AIES diferem do aparelho repressivo de estado?

Num primeiro momento podemos observar que, se existe um Aparelho (repressivo) de Estado existe uma pluralidade de Aparelhos ideológicos de Estado. Supondo que ela exista, a unidade que constitui esta pluralidade de AIE num corpo único não é imediatamente visível. Num segundo momento, podemos constatar que enquanto o aparelho (repressivo) de Estado, unificado, pertence inteiramente ao domínio publico, a maioria dos Aparelhos ideológicos de Estado (na sua dispersão aparente) releva pelo contrário do domínio privado. (ALTHUSSER, 2007:45)

Os aparelhos ideológicos de estado diferem do aparelho repressivo de estado uma vez que não se ligam somente ao setor publico como também tem ligação direta com o setor privado que mesmo não sendo publico está repleto da ideologia social vigente; logo, reforçam a ideologia do Estado.
Para Althusser existem em toda sociedade os seguintes aparelhos ideológicos de estado: O AIE religioso (representado pelo sistema das diferentes igrejas); o AIE escolar (representado pelo sistema das diferentes escolas publicas e particulares); o AIE familiar; o AIE jurídico; o AIE politico (representado pelo sistema politico de que fazem parte os diferentes partidos); o AIE sindical; o AIE da informação (imprensa, rádio, televisão, entre outros) e o AIE cultural.
Contudo, a minha pretensão não é fazer a análise de cada aparelho ideológico citado, antes a principal função desses escritos é dissertar sobre a função do aparelho ideológico escolar de estado e de como este tem exercido uma forte influência sobre o destino dos brasileiros que, ao longo dos tempos, veem na educação a única chance de ascensão de classe. Mas, até onde a ideologia presente nesse setor da vida social realmente favorece e em que ponto acaba culpando muitas pessoas por um fracasso que deveria ser cuidado pelo Estado para que não mais acontecesse?
Mas essa parte fica para o próximo texto, onde dissertarei sobre  a Escola Capitalista, apontando suas características principais e impactos na educação.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O Que Não Se Pode Mudar

"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente, não aceites o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar".

Li alguns textos de Bertolt Brecht há muito tempo atrás, quando tinha exatamente 20 anos e procurava inspiração para escrever algo que pudesse ser grande o suficiente para ser inesquecível para mim, tanto que quando iniciei meu mestrado não tive duvida, o trecho acima seria a epigrafe do meu trabalho.
E porque esse trecho em especial? Ele porque ao ler esses escritos eu não me transportei há um passado onde eu não passava de uma criança, uma menina bonitinha e distraída que não se dava muito bem na escola. Era muito inquieta, tinha o sonho de ler todos os livros do mundo, mas em verdade não conseguia nem junta-las, fazer com que elas dessem as mãos para que pudessem formar palavras, ou seja, fui mais uma das tantas crianças moradoras de periferia que fracassou de alguma maneira na escola.
Posso dizer por conhecimento de caso como dói ser apontada como inferior, essa sempre é uma das horas em que você para e pensa: O que devo fazer agora? As escolhas sempre foram apenas duas, ou eu me entrego a um futuro já traçado, ou me transformo em uma pessoa subversiva, que enfrenta o status quo e diz para si mesmo com orgulho: - Quem escolhe o que vai acontecer sou eu.
Foi assim que escolhi por tema de estudo fazer a seguinte pergunta: Qual é o local da criança pobre dentro da escola publica? Seria essa escola realmente democrática?
Era com pesar que, a cada nova pesquisa sobre o perfil do aluno pobre eu me chocava, pois desde a época em que começaram a pensar a abrir a escola para todos as viram como um problema a ser solucionada, nunca com um potencial a ser alcançado se bem trabalhado. Ao longo da historia o que se vê com clareza é o preconceito sempre culpando o local de moradia, a má alimentação, a família, a situação financeira. Nunca culparam a si mesmos por terem apenas se apropriado de metodologias nunca de fato criando um real método educacional que desse conta de solucionar o problema do fracasso escolar das crianças pobres.
Mesmo diante de um panorama devastador, tudo o que eu queria provar era que nada é impossível de se mudar, e meus primeiros passos como pesquisadora foram apontar o problema e trazer a reflexão sobre como "de fato" podemos alterar esse panorama de preconceito e estigmatização, fazendo com que fiquemos próximos a criação de um jeito de se fazer educação com a cara do Brasil, não um Frankstein de metodologias francesas, americanas, portuguesas, pois creio que só assim conseguiríamos mudar a cara e a realidade das nossas crianças carentes junto a escola.
Com minhas pesquisas iniciais comecei a esboçar um pensar para além do que temos, pretendo futuramente, em estudos posteriores , mais avançados e elaborados começar a apontar soluções para esse problema, mas por hora vou postando por esse espaço trechos com meus temas de estudos, que compuseram os capítulos da minha dissertação de mestrado, tentando chamar pessoas para mostrar o quanto é possível mudar, pois derrota só existe para aqueles que acreditam que não podem mudar nada, para os sonhadores de espirito e exatos de ação, tudo pode ser alterado, até a realidade mais dolorida pode e deve ser mudada.
Convido a quem queira dar uma espiada nos meus pensamentos, deixando a seguinte reflexão: tudo pode e deve mudar, pois a essa habilidade damos o nome de evolução.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O Ano do Zé Ninguém

Fonte de imagem:Blog Poiesis &Aisthesis

 Obs: através dos hiperlinks podem ser encontrados o livro em PDF e informações sobre o autor
 
Esse ano foi um ano atípico no nosso país, lutamos por causas vazias, e fechamos os olhos para tantas outras lutas legitimas. Nas redes sociais cresce cada vez mais a legitimação da intolerância e ódio expostas como apenas "opinião pessoal". Cada vez mais as pessoas tendem a expor sua vida como se vivêssemos em pequenos realitys shows que nos punem se não publicarmos o que sentimos, o que comemos, os nossos corpos, nossas tristezas e alegrias. Banalizamos e esquecemos do significado de publico e privado como se um e outro não fossem diferentes para nós.
Com base nessa analise me lembrei de um livro muito bom que li no ano de 2005, quando então eu entrava pela primeira vez em uma universidade, foi um livro que me marcou e releio de tempos em tempos quando o espaço a volta parece tão perturbador como o atual. Leio para me lembrar quem eu sou e o futuro que eu quero ter, leio para reconstruir e aceitar conceitos que são próprios a minha pessoa e que, nem por isso, devem ser questionado.
O livro em questão chama-se: Escute, Zé-ninguém, de Wilhelm Reich  que inicia com a seguinte reflexão:
"Chamam-te Zé-ninguém. "Homem Comum" e, ao que dizem, começou a tua era, a "Era do homem Comum". Mas não és tu que o dizes, Zé-niguém, são eles, os vice presidentes das grandes nações, os importantes dirigentes do proletariado, os filhos da burguesia arrependidos, os homens de Estado e os filosófos. Dão-te o futuro, mas não te perguntam pelo passado.
Tu és herdeiro de um passado terrível. A tua herança queima-te as mãos, e sou eu que te digo. A verdade é que todo o médico, sapateiro, mecânico ou educador que queira trabalhar e ganhar o seu pão deve conhecer as suas limitações. Há algumas décadas, tu Zé ninguém, começastes a penetrar o governo da Terra. O futuro da raa humana depende, à partir de agora, da maneira como pensas e ages. Porém nem os teus mestres nem teus senhores te dizem como realmente pensar e és, ser inabalável senhor dos teus destinos. És "livre" apenas num sentido: livre da educação que te permitiria conduzires a atua vida como te aprouvesse,a cima da autocritica.
Nunca te ouvi queixar: "vocês promovem-me a futuro senhor de mim próprio e do meu mundo, mas não me dizem como fazê-lo e não me apontam erros no que penso e faço".

Dentre muitas reflexões que o texto levanta, a mais marcante talvez seja a que nos fala de como não sabemos lidar com a nossa liberdade e de como, por vezes, fingimos entender ideias, quando em verdade distorcemos o seu sentido de forma a nos perder.
Talvez o mais gritante de se aceitar é a verdade de que nós, e mais ninguém, somos responsáveis pelas escolhas que fazemos ao longo da vida. Porque essa constatação nos torna coniventes com tantas barbáries que preferimos esquecer de tudo e admitir a nossa neutralidade. Temos a necessidade de sempre nos apoiarmos em representantes pois assim sempre podemos culpar o presidente, os políticos, nossos lideres e chefes pelas mazelas que escolhemos.

Leitura mais do que obrigatória para quem aceita o desafio de se desconstruir, para quem aceita se olhar no espelho para enxergar suas imperfeições e para todos aqueles que ousam ter a esperança de passar do status de Zé-ninguém para Alguém, pois ao final esse é o trabalho do autor, nos mostrar que por mais difícil que pareça sempre há a possibilidade de mudar  de evoluir rumo ao melhor em nós, aceitando o risco da nossa completa liberdade.





sábado, 15 de agosto de 2015

Conflitos de Identidade

Acervo: google imagens

OBS:Todos os hiperlinks levam a páginas  que explicam mais sobre o tema destacado, bem como podem baixar o livro pelo link disponibilizado

Gosto muito de livros que contam um pouco da história de nosso povo, sempre tão alegre e hospitaleiro... Bem, nem sempre tão hospitaleiro assim. 
Como pode ser observado na Biografia de Fernando Morais, Corações Sujos, que conta um pouco de como os colonos japoneses foram recebidos aqui no Brasil, além de nos mostrar a reação que a colônia japonesa teve ao saber da derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial.
Entre serem tratados como animais recebendo para viver as piores casas, serem obrigados a trabalhar em oficios duros em prol do desenvolvimento agrícola do nosso país, tiveram sua cultura renegada e foram forçados a se abrasileirarem para se adaptarem ao sua nova realidade.
Mesmo assim os japoneses continuavam a seguir suas vidas da melhor forma possível, e mesmo quando foi decretado o fechamento das escolas japonesas, e a proibição do ensino de sua língua e cultura para os japoneses nascidos em solo brasileiro, eles continuaram mantendo firme sua esperança de que a vida iria melhor com o final da guerra.
A maioria dos japoneses mantinha em si a esperança de voltar a pertencer a sua pátria depois do final da guerra, com a vitoria do Japão e a grande expansão nipônica nas terras conquistadas. Por isso mesmo, não é de se espantar que, ao saberem da derrota, muitos entraram em depressão, choraram, e a grande maioria simplesmente não acreditava que o imbatível exercito imperial japoneses fora derrotado. 
Da grande parcela de japoneses que não acreditavam na derrota do Japão e tomavam as ultimas noticiais como campanha americana e terrorista, surgiu s Shindô Remmei, ou Liga do Caminho dos Súditos, que tinham como principal função executar todos os japoneses de corações sujos que acreditavam na derrota da nação japonesa.
Um livro de leitura fascinante, que te faz viajar entre revolta e admiração, preconceito e vergonha da nossa própria nação. De leitura obrigatória a todos que acreditam que conhecer o nosso passado é o ponto de partida para entender o nosso futuro e não cometer os mesmo erros.

" Lave sua garganta, pois seu coração está Sujo". (MORAIS, Fernando, Corações Sujos)

O Dia do Mundo Sem Regras


 " No contexto filosófico, ética e moral possuem diferentes significados. A ética está associada ao estudo fundamentado dos valores morais que orientam o comportamento humano em sociedade, enquanto a moral são os costumes, regras, tabus e convenções estabelecidas por cada sociedade''. (site: Significados.com.br/etica-e-moral)

Para pensar um pouco sobre ética e moral, vamos assistir o vídeo e ver como o mundo sem regras seria. Será que todos estariam preparados para um mundo imoral e ético?
Este vídeo pode parecer um tanto quanto engraçado, mas nos faz pensar a cerca de um fato muito importante: Será que estamos preparados para sair da nossa zona de conforto social, ou será que quebrar paradigmas e respeitar condutas diferentes está distante demais da nossa realidade?
Vídeo para refletir e debater, mesmo que em silêncio e dentro de si mesmo.



sábado, 25 de julho de 2015

É POR ISSO, MEU AMIGO, QUE VOCÊ É MACHISTA

Por esses dias um amigo do meu marido perguntou a ele se ele era machista, meu marido disse que sim, mais não soube explicar para ele o porque da afirmação. Disse para mim: - O melhor seria você explicar para ele.
Lembrei desse diálogo ontem a noite enquanto eu passava por uma experiência nada agradável.
Voltando do trabalho e indo para casa dos meus pais passar o final de semana com eles e com meus filhos, corri para pegar o ultimo ônibus, eram 00h00 e tudo que eu desejava era descansar. Entrei no ônibus, paguei minha passagem e passei a catraca, assim que eu sentei o motorista começou a me xingar:
- Tá faltando R$00,05 centavos, se não tem dinheiro desce e procura um ônibus de R$3,50.
- Não por isso, Senhor, pegue esses R$10,00, me devolve meus R$3,50 e fica tudo certo, não tenho R$0,05 centavos.
Ele pega o dinheiro, cobra a passagem, mais não me devolve os R$3,50.
- Senhor, meus R$3,50.
- Já te dei seu troco lindinha.
- O troco de R$ 10,00 sim, mas o restante que eu lhe dei não.
- Já te dei seu troco. – repete alterado
- Beleza, eu só quero ir pra casa, se você precisa tanto, fica pra você.
Sento num banco e começo a ler meu livro. Um ponto antes de mim as poucas pessoas junto comigo descem, só eu no ônibus, eu e a mulher do motorista que viaja com ele e seu bebê na ultima viagem. Chega meu ponto, dou sinal, o ônibus não para. Dou sinal para descer no próximo ponto, o ônibus segue.
- Moço, eu vou descer.
Nenhuma resposta e o ônibus segue até o ponto final de ônibus, a essa altura eu já estou nervosa demais e me calo com medo do que pode me acontecer. Ele abre a porta olha pra trás e diz: 
- Agora anda lindinha.
Sem outro ônibus que pudesse me levar mais próximo da casa dos meus pais ando o equivalente a três quarteirões, no meio de um frio acompanhada da garoa. Coloco minha boina, abaixo a cabeça, me amaldiçoo por estar naquele dia de batom roxo, rezo para que não notem que sou uma mulher caminhando a noite e sozinha. 
Não, não tirei foto da placa, não me lembro da cara do motorista, do rosto da mulher dele e do bebê eu me lembro, porque ela não olhava em meus olhos, baixava a cabeça e continuava o seu caminho junto com sua família. Afinal, era só um pai de família, e se eu punir ele, o que vai ser daquele bebê? Dai eu te pergunto, meu caro amigo, o que seria de mim se algo tivesse acontecido? O que seria dos meus filhos? Será que se fosse meu marido, ou mesmo um outro amigo nosso que tem quase dois metros de altura isso teria acontecido? E mesmo que isso tivesse acontecido com um deles, quais seriam os riscos para a vida deles? Talvez um assalto, isso é passível de acontecer com qualquer pessoa. Mais e a violência ao seu corpo, o pré julgamento por ser uma mulher andando sozinha pela madrugada, claro que não deveria estar fazendo coisa boa, que mulher respeitável anda a essa hora sozinha e chorando na rua?
Sim, meu amigo, sinto em lhe dizer, você é machista, e um da pior espécie, porque tenta diminuir os pequenos abusos como se eles não fossem nada demais, se diz contra a violência, mas não entende que o feminismo não é querer ter mais direito do que outros, antes e ser vista como um ser humano que tem o direito de ir e vir e não ser ameaçado por isso, que não precisa ser julgado pela genitália.. 
Vou continuar a andar de ônibus, a trabalhar a noite e a viver a minha vida, porque por mais medo e por mais memórias ruins que um abuso possa me trazer, eu sou uma pessoa de luta e por lutar por meus direitos jamais vou me render e fazer o que esperam que uma mulher faça.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Conversas com Bourdie - Sobre como me tornei mestre

Há exatos dois anos atrás, no dia 02/04, recebia meu titulo de mestre em educação, aprovada com louvor e indicação para publicação e continuação dos estudos...
Ao ouvir a aprovação um flash de pensamentos seguindo uma longa jornada até ali, contudo apenas um pensamento em mente que nunca me abandonou, a fala do meu orientador em uma de nossas conversas que dizia:
- As vezes fico imaginando a cara do Bourdieu se estivesse aqui ao nosso lado, vendo uma mulher, negra, moradora de periferia falar com tanto propriedade sobre suas teorias. Acho que ele ficaria no minimo surpreso com isso.
Pois é, tive um percurso tão grande pra chegar até aqui que me orgulho do meu caminho. Mérito? Não, apenas a teimosia de quem faz dos obstáculos alavanca em direção a sonhos cada vez maiores.
Mesmo assim, hoje me pego lembrando dessa fala e me imagino em frente ao grande Bourdieu dizendo :
- Sabe aquela sua teoria do capital cultural? Temos que rever ela, pois já se tornou ultrapassada. Muito se fala hoje em dia de saber como poder e mesmo assim, as barreiras de classe permanecem dificultando o caminho mesmo daqueles que insistem em ir para além das expectativas de sua classe. Moro em um país que tem como uma das principais bandeiras de luta a educação de qualidade, mas no final das contas, paga mal seus professores que tem que, a todo o tempo, melhorar a qualidade da sua formação, sempre se atualizando, para enfrentar salas superlotas, mal estruturadas e alunos cada vez mais carentes, porque desde que o oficio professor foi renomeado de educador, as famílias se esqueceram de criar seus filhos, e a sociedade nos pressiona, tentando com que formemos mão de obra qualificada para o mercado de trabalho, mas no final das contas, ninguém se responsabiliza pela educação que vai ficando cada vez mais dificil para a maioria do povo que aprende a seguir normas e nunca pensar criticamente sobre nada.
A informação, meu caro Bourdieu é tão fragmentada e em quantidade tão absurda que todo mundo sabe um pouco de tudo, mas na verdade não se aprofundam em nada. Senso critico? Muitos criticos, mas sem senso algum,  A fragmentação do conhecimento que nos bombardeia nos rouba a paixão pelo saber complexo e cuidadoso de quem realmente busca sabedoria e não apenas representação.
E neste ponto é que questiono a sua teoria meu caro amigo, acumulo de capital cultural não tem sido visto como uma boa qualidade, pois não importa o quão bem formado você seja, se escolheu ser educador vai sofrer um tanto na construção de sua carreira, pois os centros de educação se tornaram empresas, professores se tornaram corretores em uma imensa bolsa de valores, onde um investimento errado pode significar demissão, Logo, professores que deveriam ser considerados os profissionais socialmente mais importantes são os mais desvalorizados dentre os profissionais com formação superior.

Por um minuto paro meu dialogo imaginário e começo a lembrar do meu status atual: Desempregada.
Deveria ter feito apenas uma pós...
Mas eu nunca vou me arrepender das escolhas que eu fiz, faria novamente quantas vezes fossem necessárias, pois ainda existem pessoas que buscam por conhecimento acima de títulos, Porque no fim posso não ser a profissional mais bem paga, contudo sempre serei o melhor que eu puder ser, buscando sempre por mais, afinal experientes não são os livros, mas sim a sabedoria de quem os escreve. 
A minha classe pode me trazer barreiras, mas minha vontade de crescimento sempre vai me levar para além, onde eu possa representar todos aqueles que fazem parte de quem eu sou e nunca tiveram a oportunidade de ir para além do que esperavam deles, por isso que digo, a estrada pode ser árdua, mas a luta é intensa e verdadeira demais para desanimar.
Você pode ter errado em alguns aspectos, meu caro amigo Bourdieu, mas sou muito mais do que um dia alguém pode imaginar que eu seria e isso que quero para todos aqueles a quem eu possa ensinar alguma coisa ao longo da minha vida profissional.